Monday, March 7, 2022

Você é um buscador ou um achador?

 

Imagine o seguinte: você se encontra com um amigo seu, muito afeito a coisas como meditação, mantra, símbolos antigos. O diálogo é este:

— Olá, amigo! Tudo bem com você? O que me conta de novo?

— Olá, prezado! Tudo ótimo! Estou estudando símbolos que aprendi com o mestre Surya Ravindra! Ele propõe a evolução através de símbolos antigos!

— Que bacana! Que você tenha sucesso neste seu estudo!

Um ano depois você se reencontra com esse amigo querido:

— Que bom te ver de novo! Como vai sua evolução nos símbolos do mestre Surya Ravindra?

— Na verdade, agora estou fazendo Meditação Dimensional com o Mestre Chang, que tem uma escola perto da minha casa.

— Tá... E como é a Meditação Dimensional?

— Mestre Chang ensina que para alcançarmos o autoconhecimento precisamos ir além da terceira dimensão, rumo à quarta, quinta e outras dimensões.

Novamente você e seu amigo ficam sem se ver. Mas, em alguma festa de casamento ou batizado você e ele se reencontram:

— Olá, meu caro! Parece que só nos encontramos uma vez por ano!

— De fato! Vida corrida!

— Nem me fale! Mas, me conta, você já progrediu na Meditação Dimensional do mestre Chang?

— Eu não estava tendo a evolução que imaginei. Então agora estou fazendo Biodança Chinesa.

— Escute, peço licença para uma observação: não seria melhor você ficar num método só de autoconhecimento, ao invés de pular de um para outro?

— Você sabe que eu sou um buscador. Procuro sempre por novos métodos, novos mestres. Sou um eterno buscador.

Acredito que você, leitor, já tenha captado o ponto em que quero chegar: quem é um buscador não é um achador. Os que se definem como buscadores são como beija-flores, provando um pouquinho de uma flor, um tantinho de outra, outro bocado de uma terceira. Isso dá certo para o beija-flor se alimentar. Mas não serve para o ser humano se alimentar de autoconhecimento.

Na antiguidade, um discípulo que abandonava um mestre já era olhado com desconfiança. Se ele agisse de maneira inconstante, buscando aqui e ali, como uma criança numa loja de doces, nenhum mestre iria mais aceitá-lo. Ele ficaria com má fama. Os mestres considerariam que ele não é sério, não merece os ensinamentos.

Se queremos de fato aprender, digamos, piano, a ponto de nos tornarmos exímios, temos que praticar oito horas por dias, sete dias por semana, durante anos e anos, sob a tutela de um professor.

E não vale responder:  Ah, mas isso é muito radical. Tem certeza? Quantas horas por dia de trabalho você exerce em sua profissão? Aposto que não menos que oito horas diárias. E ninguém colocou em você a pecha de radical, pois trabalho é assim, oito horas diárias, cinco dias por semana, por trinta ou quarenta anos, até que você tenha a sorte de se aposentar. Então por que seria diferente na música, no ballet, no Kung-Fu ou no autoconhecimento?

É verdade que, no caso do seu trabalho, há uma diferença: trata-se de seu ganha-pão. No caso de um professor de piano, dar 8 horas de aula por dia é o ganha-pão dele. Porém, quando falamos de técnicas de autoconhecimento, temos que praticá-las em nossas horas vagas. Não somos monges num mosteiro. E, francamente, eu prefiro não ser. A solução é dedicarmos algumas horas do dia para as práticas de meditação, mentalização etc. Podem ser aquelas horas que gastamos assistindo TV. Pode ser metade dessas horas. Se costumamos ficar na frente da TV quatro horas por noite, podemos reduzir isso para duas horas e fazer nossas práticas utilizando as duas horas restantes.

O importante é que tenhamos foco. Já que não temos o dia inteiro para nos dedicar à evolução pessoal, então deveríamos nos concentrar em um método, um professor. Se ficarmos pulando de galho em galho, não chegaremos a lugar nenhum. Escolha um método com o qual você se identifique. Seja fiel a esse método por muitos anos. Depois de, digamos, 10 anos, se você não notar nenhum avanço em seu grau de evolução, só então pense em trocar de método. Dessa forma, você deixa de ser um buscador, e passa a ser um achador.

Então, reforço: escolha um caminho, e permaneça nele. Você só terá a ganhar.

Sunday, February 27, 2022

Os preconceitos ligados ao autoconhecimento


Há muitos anos eu dei aula de técnicas de autoconhecimento num centro cultural. Paralelamente, eu ajudava uma diretora do Centro com o site daquele Espaço, pois tenho muito conhecimento nessa área. Pois bem, um dia essa diretora comentou com uma amiga da ajuda que eu estava prestando com o site. A reação da amiga foi bem aquela ideia errada que ainda encontramos nos dias atuais. Essa moça disse: "Mas não é possível ele ensinar meditação e ter conhecimento de Informática! Uma coisa é incompatível com a outra!"

Outro episódio. Um dia comentei com uma aluna que eu adoro passear em shoppings, que acho um ambiente muito interessante (isso, claro, foi antes da pandemia). Ela ficou espantada e confessou que jamais imaginaria que um professor de técnicas de autoconhecimento pudesse gostar de shoppings.

Há tantos casos que eu poderia mencionar, e que revelam esse mesmo preconceito em relação aos que praticam e ensinam técnicas de autoconhecimento: na cabeça de algumas pessoas, só monges de cabeça raspada e vestindo roupas de monge podem praticar autoconhecimento. Os que não se enquadram nisso não se adequam ao paradigma que alguns têm na cabeça. Em resumo, autoconhecimento, para essas pessoas, exige voto de pobreza e sandálias desgastadas.

Não, você não precisa ser monge ou monja para praticar técnicas de autoconhecimento. Ainda mais se estivermos falando de técnicas com base teórica Sámkhya, uma linha sem misticismo nem influências religiosas. Um sistema que tenha o Sámkhya como alicerce é um sistema que ensina técnicas, sejam elas técnicas respiratórias, de concentração, de relax consciente ou outras. Não há proselitismo de tipo algum, pois o Sámkhya abomina proselitismo.

Então, esqueça aqueles estereótipos de filmes de Hollywood. As pessoas que cultivam o autoconhecimento são executivos e executivas, profissionais liberais, pessoas dinâmicas e de bem com a vida. Não fazem voto de pobreza nem rasgam dinheiro, pois dinheiro é útil e necessário. Não são pessoas alienadas, pois autoconhecimento nos deixa mais centrados, produtivos e conectados com o mundo e com as pessoas.

Pode acontecer, no Ocidente, de pessoas se tornarem um tanto alienadas ou terem comportamentos exóticos supostamente porque estão praticando técnicas de autoconhecimento. Mas saiba, leitor, que isso não acontece no Oriente, é um cacoete puramente ocidental, que deveríamos corrigir.

Pessoas que praticam técnicas de autoconhecimento são pessoas iguais às outras, com qualidades, defeitos, sonhos. Se o método que a pessoa usa é sério, ela será uma pessoa produtiva e dinâmica. Então, abandone os estereótipos que você viu em filmes de Hollywood!

Você é um buscador ou um achador?

  Imagine o seguinte: você se encontra com um amigo seu, muito afeito a coisas como meditação, mantra, símbolos antigos. O diálogo é este: ...